Hebo Imoxi transforma memória em rap: Homen(s)agem conecta passado e futuro da música angolana

Ao lado de Guefária Anikulapu Ampu, veterano ligado aos Filhos da Ala Este revisita a memória musical de Angola em um projeto que mistura rap consciente, poesia e ancestralidade.

Tem disco que olha para o passado por nostalgia.

E tem disco que olha para trás porque sabe que ninguém constrói futuro sem saber quem abriu o caminho.

Foi essa segunda sensação que tivemos aqui no Cena Underground quando chegou até nós HOMEN(S)AGEM, projeto colaborativo dos rappers angolanos Hebo Imoxi e Guefária Anikulapu Ampu.

O álbum foi concebido como uma reverência àqueles que ajudaram a construir a identidade musical de Angola. Ao mesmo tempo, utiliza rap, poesia e oralidade para trabalhar memória, influência e continuidade cultural.

Entretanto, quando fomos pesquisar quem estava por trás desse trabalho, a história ficou ainda maior.

Hebo Imoxi não chegou ontem

Hebo pertence a uma geração que viu o Hip Hop angolano construir suas próprias estruturas.

Seu nome está diretamente relacionado aos Filhos da Ala Este, grupo cuja trajetória já foi objeto de pesquisa acadêmica publicada pela Universidade de São Paulo. Nesse sentido, a documentação sobre o coletivo ajuda a colocar os Filhos da Ala Este dentro da formação histórica do rap angolano e registra Hebo entre os artistas ligados ao grupo.

Além disso, existem rastros dessa caminhada há muito tempo.

Em registros da Universidade Hip Hop de Angola, uma apresentação de Hebo realizada ainda em 2012 era descrita pela organização como marcada pelo “Rap educação”, com músicas acompanhadas de explicações e interação com o público.

Portanto, se hoje HOMEN(S)AGEM fala de memória, essa escolha não parece ter surgido do nada.

Pelo contrário, ela conversa diretamente com a própria trajetória de quem está fazendo o disco.

Rap como memória e não como produto descartável

Há uma fala antiga de Hebo que ganhou um novo significado quando colocada ao lado desse projeto.

Em entrevista à VOA Português, em 2018, o rapper defendeu que o músico possui uma responsabilidade social e funciona como uma espécie de mediador da sociedade.

Além disso, na mesma entrevista, ele criticava uma música feita apenas para consumo imediato e defendia uma criação capaz de questionar problemas sociais sem perder a capacidade de reconhecer aquilo que merece ser valorizado.

Oito anos depois, essa ideia ajuda a entender HOMEN(S)AGEM.

Afinal, aqui a homenagem não aparece apenas como reverência. A proposta é usar o Hip Hop como arquivo: guardar histórias, reconhecer quem veio antes e entregar essa memória para quem está chegando agora.

“Antigos Combatentes”

Uma das portas de entrada para o projeto é “Antigos Combatentes”.

O vídeo enviado ao Cena Underground aparece oficialmente identificado como a terceira faixa de HOMEN(S)AGEM, assinada por Guefária Anikulapu e Hebo Imoxi.

O próprio título já carrega peso.

Além disso, “Combatentes” funciona muito bem dentro da lógica construída pelo álbum: artistas e figuras culturais são apresentados como pessoas que enfrentaram seu tempo, abriram caminhos e deixaram alguma coisa para as gerações seguintes.

É justamente nesse ponto que o rap consciente encontra aquilo que Hebo também carrega no próprio nome artístico e em sua apresentação pública:

o griot.

Aquele que carrega histórias.

Aquele que transmite conhecimento.

Acima de tudo, aquele que não permite que a memória desapareça.

De Caxito para quem ainda acredita na palavra

Hebo está associado a Caxito, na província do Bengo, território que aparece repetidamente em seus perfis e registros musicais públicos.

Seu catálogo no Audiomack, por exemplo, reúne trabalhos individuais e músicas relacionadas aos Filhos da Ala Este, registrando Caxito como sua localização artística.

E isso também interessa ao Cena Underground.

Porque o underground que procuramos nunca foi determinado por fronteira.

Já encontramos histórias nas periferias brasileiras.

Já atravessamos cenas diferentes.

Agora, o material chegou de Angola.

O oceano muda.

No entanto, a lógica permanece parecida.

Artistas independentes continuam criando suas próprias formas de registrar memória, circular música e manter cultura viva.

Em outras palavras, mudam os territórios, os sotaques e as referências, mas permanece uma necessidade comum: contar a própria história antes que alguém conte por nós.

HOMEN(S)AGEM

Segundo o material enviado ao Cena Underground, HOMEN(S)AGEM foi lançado em 30 de maio de 2026, reunindo Hebo Imoxi e Guefária Anikulapu Ampu.

Além disso, a obra foi produzida, gravada e masterizada pela FRENTE XTRAGA.

A proposta combina Rap/Hip Hop consciente, poesia e oralidade, tendo como eixo a valorização de figuras que ajudaram a construir a música angolana.

Inclusive, existe uma escolha inteligente no próprio nome.

HOMEN(S)AGEM.

Homem.

Homens.

Homenagem.

Uma palavra desmontada para falar de memória coletiva.

Talvez por isso, a melhor síntese do disco já esteja na própria frase escolhida pelos artistas:

“Quem honra o passado ilumina o caminho do futuro.”

Por aqui, acrescentamos outra:

underground também é memória.

Porque, quando uma geração deixa de contar sua própria história, alguém acaba contando por ela.

Por isso, trabalhos como HOMEN(S)AGEM merecem ser registrados, ouvidos e documentados.

Direto de Angola para o Cena Underground.

ASSISTA

Hebo Imoxi & Guefária Anikulapu — Antigos Combatentes

Canal oficial: Hebo Imoxi – Poesia, Música & Ancestralidade

Instagram: Hebo Imoxi

 
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